Ainda sobre metáforas

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Se os olhos não serviram como metáforas, falarei sobre pianos.

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Mais precisamente, sobre os pianos Steinway, os mais perfeitos, que estão nas grandes salas de concerto do mundo.

Os pianos Steinway são produzidos de forma absolutamente rigorosa e científica.

Tudo neles tem de ter a medida exata.
Todos têm de ser absolutamente iguais, para que o pianista não estranhe.

Mas um piano, em si mesmo, é estúpido. Falta-lhes o poder de discriminação.

Os pianos obedecem tanto a um toque de  macaco, de um louco ou do Nelson Freire.
Os pianos não são fins em si mesmos.

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São ferramentas.

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São construídos para tornar possível a beleza da música.

Mas a beleza não é um objeto de conhecimento científico.
Ninguém pode ser convencido a gostar de Bach por meio de raciocínios científicos.
Não me consta que nenhum dos especialistas em construção de pianos da fábrica Steinway jamais tenha dado um concerto.

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Ciência eles têm. Mas falta-lhes a arte.

Para que o piano produza beleza, há os pianistas.

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Mas os pianistas nada sabem sobre ciência da construção dos pianos.

O que eles sabem é tocar piano, coisa que não é científica…

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Os fabricantes de piano moram na caixa de ferramentas.

Os pianistas moram na caixa de brinquedos.

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A diferença está entre “ciência” e “sapiência”.

Os teólogos medievais diziam que a ciência era uma serva da teologia.
Parodiando eu digo que a ciência é uma serva da sapiência.

A ciência é fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo.
A sapiência usa o fogo da ciência para transformar o mundo em comida, objeto de deleite.

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Sábio é aquele que degusta.

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Mas se o cozinheiro só conhecer os saberes que moram na caixa de ferramentas é possível que o excesso de fogo queime a comida e, eventualmente, o próprio cozinheiro…

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Rubens Alves,
em http://www.rubemalves.com.br/sobrecienciaesapiencia.htm (site atualmente inativo)

https://www.flickr.com/photos/sacharules/8359938003
arte e ciência

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